Recebemos com surpresa — e não pouca perplexidade — a divulgação do evento natalino promovido pela Prefeitura Municipal, conforme material publicitário recentemente veiculado.
O sentimento que emerge não é de oposição à realização de eventos públicos, tampouco de disputa por protagonismo. O que se registra aqui é algo mais sensível — e justamente por isso mais grave: a ausência de respeito institucional à história, à construção coletiva e ao mérito de um evento natalino que, há anos, vem sendo idealizado, organizado e executado pelo comércio local, pela comunidade e por parceiros que sempre agiram movidos pelo compromisso com a cidade, e não por conveniência administrativa.
A situação torna-se ainda mais delicada quando se recorda que, em momento recente, enquanto ainda lidávamos com o coração apertado diante de uma perda significativa, um servidor municipal já se aproximava com a proposta de “ajuda”, demonstrando interesse em se apropriar da ideia que vinha sendo construída com esforço, sensibilidade e pertencimento. À época, acreditou-se tratar de boa vontade. Hoje, à luz dos acontecimentos, a coincidência chama atenção.
Não por acaso, surge agora a chamada “primeira carreata”, com idêntico propósito, mesma essência, mesmo público-alvo e, curiosamente, com o chamamento direto aos comerciantes — justamente aqueles que sempre sustentaram, financiaram e fizeram acontecer o Natal da cidade. Coincidência, sem dúvida. No mínimo, uma coincidência digna de registro.
Não se afirma má-fé. Não se imputa conduta ilícita. Mas é impossível ignorar a repetição de comportamentos que, ao longo do tempo, já foram objeto de críticas públicas envolvendo o mesmo agente, ainda antes de sua vinculação à Prefeitura Municipal de Piranguinho. A memória coletiva, diferentemente dos discursos oficiais, não se apaga com facilidade.
Reitera-se: não se questiona a legalidade da iniciativa. Questiona-se a postura ética, a sensibilidade administrativa e o respeito às construções comunitárias pré-existentes. Quem deseja fazer algo pelo povo deve fazê-lo com originalidade, diálogo e reconhecimento — não copiando, não esvaziando méritos alheios e, sobretudo, não fazendo o sinal da cruz pelas costas.
O Natal simboliza união, empatia e verdade. Valores que não se compatibilizam com a sobreposição silenciosa de iniciativas já consolidadas, tampouco com gestos que aparentam colaboração, mas resultam em apagamento.
Registra-se, assim, este repúdio de forma respeitosa, firme e consciente. Porque tradição não se copia, não se toma emprestada por conveniência institucional e não se reconstrói ignorando quem sempre esteve à frente. Tradição se respeita.
Cumpre ainda esclarecer — por dever de verdade e registro histórico — que a iniciativa do evento natalino que se consolidou como tradição local não partiu do poder público. Trata-se de um projeto idealizado e executado pelo Jornal O Aperitivo, com a colaboração direta do comércio local, da comunidade e da Polícia Militar, sempre com um único propósito: oferecer à população um Natal organizado, seguro, participativo e genuinamente comunitário.
Desde sua origem, o evento jamais teve como finalidade inflar egos, promover figuras políticas ou servir de vitrine institucional para agentes públicos ou seus respectivos servidores. Pelo contrário: nasceu da sociedade civil para o povo, sustentado por parcerias espontâneas, esforço coletivo e compromisso real com a cidade.
Importa destacar, ainda, que o evento possui nome, identidade e registro já firmados, elementos que reforçam não apenas sua legitimidade, mas também sua continuidade como tradição cultural local. Tradição essa que não se iniciou com o órgão público, tampouco depende dele para existir — embora sempre tenha estado aberta ao apoio institucional respeitoso, transparente e colaborativo.
Causa estranheza, portanto, que ao se tentar estabelecer diálogo com determinados agentes envolvidos, o que se encontre seja o silêncio: ligações não atendidas, mensagens ignoradas, ausência de retorno. Não se afirma o motivo. Apenas se registra o fato. E o silêncio, como se sabe, também comunica.
Reitera-se: não se trata de disputa, vaidade ou oposição política. Trata-se de respeito à autoria, à história construída e à ética mínima esperada na relação entre poder público e iniciativas da sociedade civil organizada.
Quem deseja contribuir verdadeiramente com a cidade soma, apoia e reconhece. Não apaga, não se apropria e não evita o diálogo.
Paula Schimith Barbosa
e saudoso Marcos Valério Ferreira.






























































